RESENHA DUPLA (LIVRO+FILME) – A Estrada, de Cormac McCarthy

 

 

 

 

 

 

 
O LIVRO

NUMA TERRÍVEL ESTRADA QUE PARECE NUNCA TER FIM, OS DRAMAS DE TODA A HUMANIDADE ESTÃO TRANSPARECIDOS NUM PAI E SEU FILHO.

Há histórias nos que fazem chorar e se emocinar, por motivos diversos. Outras nos marcam, ou chocam, ou tocam, ou aterrorizam. Sabe de uma coisa? A Estrada fez comigo tudo o que falei até agora. Seja pouco a pouco nos detalhes, seja na trágica jornada de pai e filho, seja por apresentar-nos um mundo devastado e assustadoramente possível, o livro me marcou de um jeito que poucos fizeram até então. Até o fim da resenha vocês entendem o porquê.

Para muitos, o fato de um livro ser um Best-seller conta como um diferencial de qualidade e de incentivo na hora da compra. No entanto, nem sempre a qualidade acompanha a quantidade (seja de vendas, de prêmios…), fato que serve tanto para livros ou filmes. No caso de A Estrada, temos um best-seller que faz jus as suas vendas. Embora a obra de Cormac MacCarthy (autor de Onde os Velhos não têm Vez e Meridiano de Sangue) não seja muito popular por aqui, o livro teve presença na lista do The New York Times e venceu o Prêmio Pulitzer, além de ser aclamado por muitos críticos mundo afora.

Embora a capa cinematográfica da edição nos leve a pensar em uma história de ação, A Estrada não poderia estar mais longe disso. A obra foca-se na relação de um pai e seu filho, cujos nomes não são mencionados em nenhum momento, e nem os lugares exatos por onde a dupla passa. As relações humanas são o importante aqui, as ações do homem em vista da situação mais aterradora possível, de frente para a escuridão nua e crua da morte, que neste caso poderia até ser uma saída mais fácil do que continuar vivendo e sofrendo.

A trama do livro é basicamente bem simples: um homem e seu filho estão por sua própria conta num mundo cheio de pó, cinzas e recordações terríveis de uma civilização que um dia existiu. Com um carrinho de mercado quase vazio e um revólver com duas balas, eles percorrem as estradas que restaram rumo ao sul, aonde decidem arriscar a sorte mesmo sem saberem ao certo o que encontrarão no fim do caminho.

E é isso. A partir daí somos jogados pouco a pouco nesse terrível mundo cinzento pelo ponto de vista dos dois, que estão constantemente passando fome e risco de vida. E as questões morais que são discutidas ao longo do livro são atemporais ao mesmo tempo em que são sutis e cruéis. Vale a pena viver num mundo sem esperança? Deve-se fazer de tudo para sobreviver, até mesmo condenar alguém a morte? Sem juízes para apontar o bem e o mal, o que é considerado bom ou ruim? Até aonde vai a maldade do ser humano e seu senso de justiça? É, são discussões fortes… E que permanecem sem resposta até o fim da leitura. Até porque, quem é o autor para responder perguntas tão terríveis?

Página após página vamos nos comovendo e temendo pela vida do pai e do filho, que falam pouco, mas quando falam transmitem muito de suas características. O homem é uma pessoa arrasada pela vida e completamente exausta, mas que tem que se convencer a cada dia de que está fazendo o certo por seu filho; a criança é ao mesmo tempo inocente e madura, por vezes questionando coisas como se os dois vão morrer, chorando em noites de tempestade… Ele tenta se convencer de que ainda estão fazendo as coisas certas, embora esses conceitos tenham caído por terra há muito tempo.

Ao longo da estrada que parece nunca ter fim os dois não estão sozinhos, e os momentos em que encontram outros sobreviventes são muito bem bolados. Cada encontro é bem diferente do outro e traz à tona novamente as perguntas fundamentais que continuam sem respostas. Algo notável é o sentimento de alegria que se mistura com a tristeza em certos momentos, como quando eles encontram algo bom, como uma fonte de alimentos. Sim, eles vão sobreviver. Mas e depois? Morrerão lá na frente? Para que então continuar vivo? Tudo é exposto de forma brilhante e sutil pelo autor.

Comentando agora a narrativa, pode-se dizer que ela é bem diferenciada. Primeiramente, não temos aqui a divisão em capítulos ou partes, apenas pequenos espaços delimitando os parágrafos, o que não é ruim e ajuda a dar fluidez a história. Vez ou outra o autor resolve divagar com metáforas sobre a estrada e seus perigos, o que pode ser de difícil entendimento para alguns (felizmente não é algo constante). Não há na obra palavras rebuscadas demais ou algo do tipo, embora a linguagem seja inteligente e por vezes diversificada, como quando repete numa mesma frase o conectivo “e” várias vezes.

A Estrada é uma leitura mais do que recomendada, é uma experiência linda, triste e tocante, que mostra que até mesmo os maiores Best Sellers atuais podem ter conteúdo de verdade (admitam, a lista de mais vendidos hoje em dia tá cheia de porcaria…). É um livro que nos faz refletir, temer e agradecer por ainda termos nossas vidas do jeito que são. Cormac MacCarthy tornou-se um dos meus autores preferidos depois dessa primeira experiência de sua obra, pois poucos livros conseguiram me comover como esse A Estrada.

Livro nota… 10!

(Dez não significa perfeito, significa melhor se comparado a outros livros numa escala de qualidade…)

 

O FILME

Adaptado de forma muito competente, o longa consegue retratar fielmente o espírito do livro, mostrando-se tenso, dramático e assustadoramente humano.

O autor Cormac MacCarthy já teve uma obra sua adaptada para o cinema antes, com o premiado  longa Onde Os Fracos Não Têm Vez, uma ótima adaptação e um filme bem acima da média (falando na obra desse autor, estou ansioso para conferir os outros livros dele… e recomendo para todos!). E agora temos nos cinemas a adaptação A Estrada, mais uma obra adaptada de forma muito competente.

Lançado em 2009 (no Brasil em 2010…), dirigido pelo não tão conhecido John Hillcot (responsável por A Proposta) e estrelado pelo talentoso Viggo Mortensen (nosso eterno Aragorn), A Estrada é um filme vendido de forma errada na minha opinião. Pelos pôsters e talvez até pelo trailer, acha-se que o longa é um filme de ação ou um típico conto pós-apocalíptico. Mas não é.

Como adaptação, Hillcott  conseguiu capturar muito do espírito do original. O mundo descrito no livro nos é mostrado por meio de uma fotografia linda nas telas, assim como nos personagens, nos diálogos, etc. Pai e filho são encenados de forma muito competente, tocando até mesmo quem não leu o livro.

Mortensen nos brinda com uma interpretação brilhante de um homem totalmente ferrado, sujo, cansado e triste. Magro, com os olhos pesados, o andar difícil. O garoto também está devidamente retratado, num papel muito difícil para uma criança. Destaque também para a mulher do protagonista, presente sempre nos flashbacks, que demonstra uma tensão e uma tristeza palpáveis.

Felizmente, todas as partes importantes do livro foram levadas às telas, com pequenas alterações que não prejudicam o andamento da história. As cenas fortes são mostradas de forma explícita, seca, crua, tornando-as tão realistas que tornam-se perturbadoras.

Os dois protagonistas estão devidamente esfarrapados, imundos, exaustos. O filme conseguiu realmente nos mostrar isso, mostrar que cada dia naquele mundo é um sacrifício. Não dava mesmo para ser bonitinho, caridoso ou limpo. Como tudo mais naquele mundo, eles não estão vivendo, mas sim sobrevivendo.

Diferente do livro, onde temos dias apenas acompanhando o dia-a-dia dos dois, no filme acontece de cara os acontecimentos importantes. Talvez isso tire um pouco do sentimento do expectador pelos personagens. No entanto, esse detalhe é uma coisa sentida apenas por quem leu o livro, então não chega a ser um erro grave.

Apesar de meus elogios, uma coisa é certa: quem procurar esse filme com a cabeça pensando em outra coisa vai se decepcionar. Não há muitas cenas de ação. Não há muito dinamismo como num trilher ou numa aventura. É um drama lento, épico,perturbador e  terrivelmente humano, que se bem interpretado pode ser considerado um baita filme. Na verdade isso vale para qualquer obra, não é mesmo? Tem que saber assistir…

NOTA PARA O FILME: 9 de 10

 

 

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Publicado em segunda-feira,7 fevereiro,2011, em Cinema, Críticas de Cinema, Literatura, Resenhas Literárias e marcado como , , , , . Adicione o link aos favoritos. 6 Comentários.

  1. Suas resenhas são simplesmente incríveis… Aumentam totalmente minha vontade de ler algum livro.
    Este A Estrada estava esquecido em minha lista no Skoob, e nunca havia lido resenha sobre o mesmo. Gosto muito de livros desta forma, que questionam sobre muitas coisas, deixam as perguntas no ar, e são “tocantes”, digamos.
    Já fico emocionada facilmente com livros, imagina este rs
    Bem, gostei muito de como você falou do livro, e espero poder ler ele logo… 🙂

  2. Não é por nada não, mas eu não achei que a capa do livro sugere uma história de ação.

    • A capa que tem o pôster do filme sugere algo como uma luta pela sobrevivência com ação… pelo menos na minha opnião. Mas a capa original, lá no início do post, não demonstra isso, realmente.

  3. Muito bom esse filme..
    alguem sabe se havera continuação.

    Pois no fim termina com o menino e deixou muita curiosidade.

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